Desafios trabalhistas em 2026

Murilo Chaves – Advogado

A advocacia trabalhista chega a 2026 diante de um cenário paradoxal. De um lado, a Justiça do Trabalho está institucionalmente mais fortalecida do que em anos recentes. De outro, enfrenta desafios relevantes decorrentes do progressivo tensionamento de suas competências, especialmente a partir de decisões do Supremo Tribunal Federal (STF).

Nos últimos anos, a Justiça do Trabalho reafirmou sua centralidade na tutela das relações laborais. Superou discursos de esvaziamento de sua competência, ampliou sua capacidade de resposta e voltou a registrar alto crescimento no número de demandas.

Esse fortalecimento, contudo, convive com um movimento simultâneo de restrição interpretativa. O STF tem assumido protagonismo crescente em temas tradicionalmente afetos à Justiça do Trabalho, especialmente quanto à validade de modelos contratuais, à terceirização, à negociação coletiva e também à delimitação da competência material trabalhista.

Esse contexto exige do advogado trabalhista mais do que atualização normativa: impõe compreensão ampliada do sistema jurídico, maturidade institucional e capacidade de adaptação.

Ao reafirmar a autonomia privada coletiva e impor limites à atuação expansiva da Justiça do Trabalho, o STF redesenha o espaço decisório e impõe novos parâmetros interpretativos. Esse movimento gera insegurança e exige maior sofisticação técnica de quem lida com o direito.

Para a advocacia trabalhista, esse é um dos grandes desafios de 2026. Já não basta dominar a legislação ou a jurisprudência dos tribunais. É indispensável compreender as diretrizes fixadas pelo Supremo, seus fundamentos constitucionais e seus reflexos práticos no judiciário trabalhista.

Paralelamente, o sistema de precedentes tende a se consolidar ainda mais no país. Teses vinculantes, julgamentos repetitivos e mecanismos de uniformização exigem uma advocacia menos reativa e mais estratégica, com pedidos alinhados a precedentes qualificados, sob pena de perda de efetividade.

Nesse novo ambiente, também se observa mudança no perfil das demandas. As ações trabalhistas tornam-se mais técnicas, delimitadas e sensíveis à prova e à jurisprudência consolidada. Logo, argumentos bem estruturados e juridicamente consistentes ganham protagonismo.

Por fim, 2026 desafia a advocacia trabalhista a repensar seu papel institucional. Em um cenário de transformações tecnológicas, uso crescente de inteligência artificial e mudanças profundas nas relações de trabalho, o advogado amplia sua atuação: além da defesa judicial, assume papel relevante na gestão de riscos, na orientação estratégica e na promoção da segurança jurídica.

É certo que o futuro da advocacia trabalhista não será definido pela polarização nem por discursos simplificadores. Ele será construído por profissionais capazes de compreender a complexidade do sistema, de dialogar com suas tensões institucionais e de atuar com responsabilidade técnica em um Direito do Trabalho em constante transformação.

Fonte: Jornal O Popular/ Opinião
Murilo Chaves é advogado, especialista em Direito do Trabalho. Conselheiro seccional da OAB Goiás e integrante do Instituto Goiano de Direito do Trabalho (IGT).

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